Desafio das palavras: Amor platônico de esquina (a versão dele)

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Num dia qualquer, eu caminhava pela rua. E um reencontro inesperado (e temido) aconteceu.
Após muito tempo, eu revejo uma pessoa a quem amei muito e até hoje era um ser distante.
Numa esquina qualquer, fatidicamente voltamos a nos ver.
Em dois segundos, anos são revividos, histórias submergem, tudo volta. Ou melhor, quase tudo volta.
Não voltou o amor mútuo, que ocupava 25 horas de nossos dias, muito menos tudo que foi construído.
Não vieram as piadas e os galanteios que lhe faziam sorrir; não veio o entrelace de dedos das mãos que arrepiavam pelos de ambos.
Ficou faltando o programa a dois improvisado, o desabafo de um dia cheio, em que um tanto compreendia o outro.
Sumiram os defeitos que soavam como qualidade, e as qualidades que nos faziam uma simbiose.
Surgem apenas sorrisos desconcertados e um constrangimento sufocante.
A esquina é um encontro que revela uma distinção entre você e eu; ela é uma porta de vidro de um prédio comercial fora do expediente: não abrirá agora para permitir que se passe para qualquer dos lados.
A esquina faz você e eu nos enfrentarmos numa guerra fria da mesma forma que as partículas subatômicas: em menos de um segundo.
A esquina revela o amor que ainda sinto por você…uma sensação estranha, algo que parece um remédio intravenoso que faz o caminho inverso que se conhece naturalmente: sai do coração para as extremidades.
O coração não sabe se comportar numa esquina em que você aparece…e eu, naqueles dois segundos, já desenhava o sorriso contido (embora desconcertado) de quem ainda pensa da mesma maneira sobre alguém que não mais lhe ama.
Você, o outro sorriso, estava muito mais serena que eu; era senhora da situação. Era a rainha que sempre foi.
Uma conversa fiada, um sinal fechado…e voltamos às nossas vidas.
Depois de uma esquina como essa, eu visito o meu sótão, o meu museu particular. E, ao acender a luz, relembro que você é uma exposição permanente.
Os quadros que você pintou ainda estão frescos, não sei até quando. Sou apenas o curador.
Saio de lá; apago a luz. Volto à luz natural, ao lugar onde estão as perguntas que não fiz a respeito do meu passado e do meu futuro. Elas não importam, pois virão naturalmente, em qualquer esquina por aí. As esquinas da vida são encontros de planos distintos, os quais nem sempre são novos, mas sempre são vivos. É de vida que preciso enquanto não chego à rua sem fim.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Clique aqui para ler a versão dela.

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