Desafio das palavras: O olhar que trai e nos atrai (a versão dele)

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Quando olhos, como os seus, são suficientes para me fazer esquecer de todas as circunstâncias que nos impedem de ser “um só corpo e um só espírito”, estes olhos tanto atiçam quanto decepcionam.
Sob suas íris eu vejo um mundo no qual eu adoraria viver: um quarto no qual o espelho é redundante; uma janela pela qual só se veem belezas; uma cama em que a paz anseia alcançar e repousar; uma porta da qual não tenho a chave.
Por estes olhos, passa a doçura das infâncias que brincam no parque e a dor cotidiana de ser adulto. Por meus olhos passa tudo; você fica.
Seus olhos me atraem.
Os olhos de alguém que é de alguém brilham mais; a segurança de um amor garantido faz a dona destes olhos apaixonar muitos outros pobres coitados. Ah…onde fui amarrar meu burro…
Estes glóbulos mais parecem peçonhas, pois destilam veneno em mim, como uma mordida no peito, direto no coração, que passa a irrigar todo o meu corpo com a seiva da ilusão. Você é a medusa dos tempos modernos.
Seus olhos me traem.
Seu chamado é singelo e discreto…meios olhos, meias pálpebras…um olhar lânguido crava uma seta na maioria dos homens…em mim, ele crava um tronco de sequoia. Você me olha e um atropelo acontece…a sequoia leva minha alma pro outro lado da cidade. Quando volto ao meu corpo, aquele olhar inesquecível ainda me atormenta.
Seus olhos me atraem.
No entanto, quem me convoca não me quer por inteiro, mas apenas o que lhe faz falta. E o meu lado amante não está incluído nisto. Resta a mim lhe olhar de volta e satisfazer aos seus simplórios anseios.
Quem me convoca me olha sem lançar o pecado, mas invocando-o. Quem eu desejo tem um olhar que estaciona pleno…noutro lugar, longe de mim, longe de meu mundo.
Seus olhos me traem.
Esta mulher provoca a cegueira que tantas vezes já repudiei, mas que nunca resisto…ela desafia minha miopia, meu astigmatismo, meus olhos fechados e até meu desejo de não amá-la. Por onde vou sou perseguido pela expectativa de ser percebido por ela, e então caçado e capturado por seus cílios, engolido por sua retina, e devolvido ao mundo externo como sua lente de contato, somente útil enquanto eu estiver em sua mira. Predadora, com ou sem fome.
Ah! Como eu queria que você me olhasse de verdade, com tudo o que tem neste coração que já quis tanto…ah, como eu queria te ver superficialmente, com toda a reserva e isenção de quem não precisa de tantas linhas pra falar de um mero olhar.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

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