Desafio das palavras: Sorvete de limão (a versão dele)

Eis o momento que precede minhas epifanias, mudanças de planos, renascimentos. Eis o golpe que me desperta para o mundo que ainda não aproveitei.

§

Triste fico quando sonho por demais. Triste estou quando, mesmo com muito, ainda peço mais.
Triste eu era no auge da minha solidão; triste sou quando aqueles a quem peço nada me dão.
Triste eu tento ser alguém para ser visto; mais triste me vejo quando nada ganho por isto.
Triste sou eu falando de tristeza. Triste é uma palavra triste por natureza.
Fale de tristeza comigo, pois dela eu entendo. Dela já morri; revivi, agora sou o remendo.
Não me fale de amor, ao ouvir dele, triste fico; pois ele me deixou pobre depois de me fazer rico.
Tristeza um pouco é bom, pra definir alegria; por demais é mal crônico que lhe cega e inebria.
Não gosto da tristeza, mas ela me acompanha; quem vive de amar demais, da tristeza sempre apanha.
Há dias sem tristeza, mas eu mesmo não lembro; qual foi mesmo o ano que teve 31 de setembro?
Há dias de alegria, mas não lembro também; há muito me deixou quem eu queria tanto bem.
Eu canto essa tristeza, porque ela aqui ecoa; toda vez que lhe canto, ela bate asa e voa.
Eu canto meu lamento, porque ele é bem bonito; tristeza enche meu prato; tristeza é meu dito.
Meu canto não é triste, apesar do seu tema; é que qualquer assunto recai em meu poema.
Sou um poeta triste, que quer se consolar…nas vias dos amores que vivo a caminhar.
Traga sua tristeza, que a ela eu enfeito; faço dela canção, no ritmo e tom perfeito.
Não peço algo em troca, pois verei seu sorriso; mesmo triste eu quero ver seu riso até o siso.
Se eu fosse um sorveteiro, venderia só limão: é doce, é azedo, mas refresca…tá na mão!
A tristeza do poeta é um misto de sabores; decepções, alegrias, tristezas, amores.
Mas esse sabor limão é mesmo especial: combina esses gostos quase que ao natural.
Se tem sabor melhor, você pode me ensinar; eu sou bom sorveteiro, mas posso melhorar.

§

Eis o momento em que contemplo o sabor do meu esforço, o produto da minha reflexão. Eis a rotina que me persegue: da tristeza, fazer alegria, como o triste palhaço que curiosamente sabe fazer rir.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

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