Desafio das Palavras: “Monotonia monogâmica: verdade ou ilusão?” (a versão dele)

https://www.flickr.com/photos/katietegtmeyer/124315323

Naquele banco do parque eu te conheci, trocamos o primeiro beijo, me pus de joelhos pra pedir sua mão. Você me permitiu seguir outro rumo na vida, até então desconexo dos meus ideais e desejos.
Você se tornou um dos meus desejos e cúmplice dos meus ideais.
Eu era um planador, de rumo reto e insosso…você refez minha engenharia, veio pra ser meu manche e motor.
Outra figura tão marcante não há nem haverá, pois você está para minh’alma como gêmeos siameses estão um para o outro: naturalmente ligados.
Um dia nossas mãos se tocaram por acidente; você deixou escapar um leve sorriso; eu pedi desculpas. Em casa, algumas palpitações antes de dormir.
— Tudo bem, amor?
— Sim, meu bem.
E fui dormir.
Uma semana depois, já eram perguntas bobas aqui ou ali. Em casa, olho pra janela como se seus olhos castanhos, seus cabelos negros e sua silhueta ali estivessem.
— Amor, você está estranho…
— Eu? Que nada…só pensando um pouco.
Antes de uma traição, você se trai. Propósitos antes pétreos agora são inconveniências diante do novo objetivo. Você esquece de parar, pensar, concluir e conversar. Você pula etapas, depois tenta retornar.
Era um dia com mais trabalho que o normal. Por que deixar para amanhã o que pode ser pretexto pro que vai acontecer hoje? Você passa em frente a minha janela. Um soluço. Você passa pela minha porta. Respiro. Alguém bate à porta. Pode ser qualquer um. Você pede licença.
(Na verdade, você entrou sem bater. Eu que estou tentando conter uma avalanche de emoções aqui.)
No suposto intuito de perguntar algo com e sem sentido, você se aproxima de mim. O final já foi decretado, mas nós queremos desafiar a si e ao outro a resistir a este jogo: de nervos, de sedução.
Roupas e cabelos fora de lugar; mentes noutro plano; hormônios em profusão. Muita coisa se passou antes dessa descarga visceral e lasciva. Dois pares de olhos, de mãos e de lábios incontidos, e duas pessoas querendo fundir-se numa só…espera aí…eu já fiz isso antes.
Em casa, me visto de quem trocou o pneu do carro no meio do caminho, para olhar nos olhos de com quem “já fiz isso antes”. Onde eu estava com a cabeça? Noutro plano.
Minha árvore da vida exibe dois galhos fortes: o de sempre e o novo. O frutífero e o espinhoso. Quero a doçura do fruto e o ardor do espinho. E agora? Faço a árvore crescer, faço uma tenda de espinhos, ou pulo entre os galhos, na esperança de que não quebrem e eu me quebre de uma vez sob os pés das raízes?

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

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