O Livro dos Espíritos (Allan Kardec, 1857)

Antes de mais nada, esta é uma resenha analítica e despretensiosa; com ela busco passar minhas impressões e destacar as partes que mais me interessaram pessoalmente.

O primeiro dos cinco livros do Pentateuco de Allan Kardec nos introduz à Doutrina Espírita sob a forma de uma entrevista comentada, na qual há respostas anônimas e assinadas por célebres nomes como Fénelon, Santo Agostinho, Platão e outros.

Trata-se de um livro grande, com quatro grandes partes (Causas Primárias, Mundo Espírita, Leis Morais, Esperanças e Consolações), além de Introdução à Doutrina e Conclusão. É uma leitura densa e escrita, em certos momentos, com palavras antigas e pouco usadas contemporaneamente (recomenda-se sempre um dicionário ao lado para consultar; os e-books já dispõem de recurso facilitador).

É, em grande parte, um livro naturalmente doutrinador, um convite constante a ingressar na prática do bem apoiado pelos espíritos que já povoaram a Terra e outros planetas, como dito ao longo do livro. Porém, para aquele que navega por todo o conteúdo, é possível encontrar boas peças filosóficas úteis a qualquer pessoa, independente da (não) crença. Assim, vamos a alguns trechos que destaquei ao longo do estudo superficial do livro.

“Aquele que se fez especialista prende todas as suas ideias à especialidade que adotou. Tirai-o daí e o vereis quase sempre desarrazoar, por querer submeter tudo ao mesmo cadinho[…]”

Em minhas aulas de Metodologia da Pesquisa, ouvi “argumento de autoridade x autoridade do argumento”. Aqui está uma forma de falar sobre isso. O especialista no assunto “a” não deve doutrinar sobre “b” quando deste não sabe.

“[…] o Espiritismo não é da alçada da Ciência.”

Embora não conteste outras formas de ordem do mundo (religião, arte, ciência, filosofia), a Doutrina Espírita faz questão de pedir o distanciamento das demais.

“O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro.”

Todo cuidado é pouco sobre o que se julga conhecer.

“Acrescentaremos que a forma da resposta depende muitas vezes da forma da questão.”

Ao longo do livro, os espíritos contestam algumas perguntas ditas “tolas”, pela simplicidade ou pela pouca compreensão do que representa a Doutrina. Assim como no livro, é na vida: só obteremos boas respostas a partir de boas perguntas, ou seja, devemos trabalhar e gastar o nosso conhecimento até o limite, até que a pergunta certa possa ser feita.

“[…] a ideia é tudo, a forma nada vale.”

Quanto mais elevado o espírito (aqui digo em qualquer aspecto), mais longe de coisas e pessoas falará, mas sobre ideias.

“[…] as amarguras da vida são provas úteis ao seu adiantamento, se as sofrer sem murmurar, porque será recompensado na medida da coragem com que as houver suportado.”

As experiências negativas por que passamos são sempre aprendizado, na medida em que as superamos.

“[…] por isso que os que ainda não estão completamente desmaterializados procuram frequentemente semear a dúvida por malícia ou ignorância.”

O apego ao material nos atrasa em sermos pessoas melhores…

“Estudai as vossas próprias imperfeições, a fim de vos libertardes delas […]”

“No entanto, mesmo os seus erros servem para realçar a verdade, mostrando o pró e o contra.”

“Remonte cada um à origem deles e verá que a maior parte de tais sofrimentos são efeitos de causas que lhe teria sido possível evitar.”

…e, para sermos pessoas melhores, precisamos observar criteriosamente nossas falhas.

“[…] o instinto existe sempre, mas o homem o despreza. O instinto também pode conduzir ao bem. Ele quase sempre nos guia e algumas vezes com mais segurança do que a razão. Nunca se transvia.”

Dizem os falantes do inglês “trust your gut” (confie em seu estômago); dizemos nós “a primeira impressão é a que fica”.

“Dome suas paixões animais; não alimente ódio, nem inveja, nem ciúme, nem orgulho; não se deixe dominar pelo egoísmo; purifique-se, nutrindo bons sentimentos; pratique o bem; não ligue às coisas deste mundo importância que não merecem; e, então, embora revestido do invólucro corporal, já estará depurado, já estará liberto do jugo da matéria e, quando deixar esse invólucro, não mais lhe sofrerá a influência.”

Um dos grandes resumos do livro e, a meu ver, da Doutrina Espírita.

“Já dissemos que a prece é que santifica o ato da rememoração. Nada importa o lugar, desde que é feita com o coração.”

“Deus assiste os que obram, não os que se limitam a pedir.”

“Aquele que a Deus pede perdão de suas faltas só o obtém mudando de proceder.”

Não adianta fazer sem intentar, nem intentar sem fazer.

“‘Esquecido de seu passado ele é mais senhor de si’.”

Se já aprendemos com nosso passado, voltemos ao hoje.

“Em verdade vos digo, imprevidente não é a Natureza, é o homem, que não sabe regrar o seu viver.”

“[…] foi voluntariamente que o ébrio se privou da sua razão, para satisfazer a paixões brutais.”

Devemos conter os excessos, que prejudicam o corpo e o espírito.

“A caridade, porém, desconhece latitudes e não distingue a cor dos homens.”

Uma das possíveis traduções para o ditado “fazer o bem sem olhar a quem”.

“Só a educação poderá reformar os homens, que, então, não precisarão mais de leis tão rigorosas.”

Quanto mais educado um povo, mais ele se reconhece, se cuida e se vigia; são as leis mero complemento.

“Toda crença é respeitável, quando sincera e conducente à prática do bem.”

Eis o porquê de sermos tolerantes com o próximo de (não) crença distinta.

“Se alguma coisa se pode impor, é o bem e a fraternidade.”

“Ora, o bem é sempre o bem, qualquer que seja o caminho que a ele conduza.”

Pra que mais?

“O homem criterioso, a fim de ser feliz, olha sempre para baixo e não para cima, a não ser para elevar sua alma ao infinito.”

O ser humano nada mais é que um ser acima do chão e abaixo do céu.

“O que menos necessidades tem, esse o mais rico.”

Se estamos saudáveis, alimentados e vestidos, nossa missão é garantir isto ao próximo e elevarmos nosso espírito humano.

“Para aquele que a inveja e o ciúme atacam, não há calma, nem repouso possíveis.”

A inveja é uma promessa vazia, e o ciúme é um pesadelo materializado. Acordemos.

“A ingratidão é uma prova para a vossa perseverança na prática do bem […]”

Para todo bem recebido, “muito obrigado”.

Enfim, para aqueles sem muito tempo ou que não desejam ingressar numa doutrina, a introdução, por si só, é um livro que já nos passa bons ensinamentos. Mas, para quem busca algo a seguir, há muitos pontos no desenrolar do “Livro dos Espíritos” que explicam muitas lacunas da vida. Boa leitura a todos.

PS – fiz outros destaques, mais voltados a Doutrina e aos princípios cristãos; a quem desejar, posso apresentá-los.

PS (2) – onde comprei: https://www.amazon.com.br/Obra-Completa-Allan-Kardec-Definitiva-ebook/dp/B010Y0MCSI/

https://www.amazon.com.br/Obra-Completa-Allan-Kardec-Definitiva-ebook/dp/B010Y0MCSI/
Capa extraída do livro.
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