Autobiográfico XVI / Ermita

Sozinho eu venço batalhas;
Batalhas venço solitário;
Encontrando mais e mais falhas,
Aguardando o próximo páreo.

Amigos não trago pra luta
Pois são dos meus tempos de paz;
A guerra tem causa fajuta;
Eles são, por muito, reais.

Viver, de qualquer jeito, é duro
A mente é sempre insatisfeita
Penso, solitário, no escuro:
Que mal estará na espreita?

Que bem a sorte me promete?
Que jeito o acaso dará?
Que louco sabe o que conserte
O peito de quem sofrerá?

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Autobiográfico XV / Crítico

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O palhaço ainda sabe fazer rir.

Meu coração é um desperdício
Otimista desde o início
Mendigando atenção.

Pobres átrios e ventrículos
Não cansam de serem ridículos;
Não pedem extrema unção.

Faço muito texto belo
Mas o sorriso é amarelo
Quando percebo a ironia.

És uma estátua de areia
Tão real quanto a sereia
Que surge na epifania.

Rico do ouro de tolo
Não tenho um pé de consolo
Que me dê satisfação.

O verso é confessório
O lamento é notório
Meus dias só são.

Eu busco um novo sentido,
Limpar o peito doído,
Rasgado em outra recusa.

Recusa que eu fomento
Ao insistir no alimento
Que fere quem muito abusa.

Sou uma pergunta sem resposta,
Oferta sem contraproposta,
Crime sem objeto.

Sou um louco desinternado,
Sou um morto desenterrado,
Sou um péssimo projeto.

Autobiográfico XIV / Cotidiano em confissão

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Eis aqui teu perdulário
Gastando vocabulário
Pra contar causo do dia…

…em que a vida não dá trégua,
Cada passo é uma légua,
Todo sonho se adia.

Esse chão que não distingue,
Seja matuto ou bilíngue,
Recebe a nós igualmente…

…pois se a herança varia
Na última cantoria
Todo ser vira semente.

Eis o mundo em que vivemos,
Pouco somos, muito temos,
Pra fugir da solitude…

…somos individualistas,
Somos pseudo-artistas,
Sem trabalhar na virtude.

Tá faltando coerência,
Honestidade, decência,
Por-se no lugar de alguém…

…Compartilhar dos problemas,
Recriar os velhos lemas,
Fazer mais que ser ninguém.

Meu espírito se cansa,
Não tem sorte nessa dança
Que todos dançam às cegas…

…quem me dera ser bom só
Como a linda nota sol
Em qualquer palco de Vegas.

Paciência é algo escasso…
Descobri noutro fracasso
Mas a sorte é ainda mais.

Cabeça me diz “avante”
O coração me diz “cante”
Quando a inspiração jaz.

Maior confissão já feita
Não tem pronta uma receita
É feita de improviso.

Biografia cantada
É bonita; não diz nada…
São só palavras; é isso.

Autobiográfico XIII / Vácuo

Meu amor é uma mentira,
Uma bala que não atira
Num alvo desconhecido;

É luz de estrela morta,
Medida de régua, torta,
Na cara do iludido.

Meu querer é mais um luxo,
Coisa que não enche o bucho
Quando a fome traz o frio;

Outro inócuo remédio
(Não é bom nem sequer médio);
Faz das lágrimas um rio.

Meu sentir não liga as peças,
Não me cumpre as promessas
De haver reciprocidade;

Estrada sem cruzamento,
Adulto sem seu rebento,
Prefeito sem sua cidade.

Meu pensar é chuva santa,
O que sobra à seca planta
Quando o resto não lhe irriga;

Ladeira que só se desce
No rumo de outra prece
Que se converte em cantiga.

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Desafio das Palavras: Agulha no palheiro (A versão dele)

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Sou marginal.

Vivo à margem dos quereres que me apresentam. “O mundo é de quem tem: tenha também”! O que ganho com isso? Contas pra pagar e menos espaço em casa. Que o mundo gira em torno do dinheiro, isso é inegável…mas, pensando bem, uma cédula de papel é inflamável; minhas ideias são à prova de fogo.

Passo ao largo dos amores de conveniência, de carnaval, de momento. Sou o próprio amor, sou um profeta dEle, um filho de DNA idêntico a seu genitor. E este é meu defeito. Ser amor encarnado é bonito na teoria, mas terrível na prática. Sem tratamento para este mal, vivo a vida de um paciente crônico: aguardando a melhor hora.

Sou indigno da realidade urbana, do caos compartimentado entre as faixas de tráfego, do novo vício do stress, das amizades de rede social. Não fui criado pra isso…entretanto realizo o milagre de sobreviver em meio a estas coisas tão distintas de minha personalidade, talvez por não temer o novo, o estranho…

Ainda assim, me sinto uma agulha no palheiro.

É preciso fogo pra me separar da palha que é essa vida que não me compreende: por que comprar, se tenho o que preciso? Por que não se apegar, se eu vivo de conexões fortes e ricas? Por que aumentar o passo, se eu sei aonde quero chegar? Aquele mesmo fogo vai queimar tudo o que é descartável, mas vai somente aquecer o metal que conduz toda energia que lhe é dada.

Escrevo pra ser entendido, compreendido. Quem me segue supera as minhas expectativas; quem me propaga, levará calor aos corações de outras agulhas que também estão perdidas por um dos palheiros do mundo.

Sou, na verdade, uma agulha quente.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Portão de embarque

Meu barco dorme à margem dum rio seco
Meu ser hiberna onde não pertence
O meu amor é vítima num beco
Minha canção nenhum festival vence.

Meu pensamento foge da mentira
Meu coração a ele atrapalha
Se tento, em vão, conter a minha ira,
Me queimo fácil, como fosse palha.

O espelho mostra alguém que desconheço
Pois o que vejo não traz resultado
O “ser eu mesmo” cobra um grande preço
Eu pago e nada levo do mercado.

Se os meus planos falham um a um
Melhor mesmo é mudar o objetivo
Nos tantos eu encontrarei algum
E nele eu terei meu incentivo.

Pra quem se livra de um velho caminho
Qualquer um novo é melhor que nada
Acompanhado ou mesmo sozinho
Eu sigo, pois só eu me levo a estrada.

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Desafio das palavras: Bigorna (a versão dele)

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“Bigorna, instrumento de trabalho do ferreiro, que forja o metal no calor.
Papel, instrumento de trabalho do poeta, que forja as frases no contexto.”

Um poema faz sentido ao poeta
Dois poemas reunidos, ah! Nem tanto
Um pedaço de papel cumpre uma meta
Que é incerta mesmo ao cair de seu manto.

Um poeta nada diz sobre o poema
Dois poetas mudam o rumo da conversa
Ao poeta é melhor mudar o tema
Quando a sua inspiração só tergiversa.

Se o fio da meada está fervendo
Nada abala seu caminho luminoso
Uma ideia vem pulsante, num crescendo;
Não existe trabalho mais proveitoso.

A cabeça do poeta é uma enxaqueca
Só esperando a substância dispersiva
Com o alívio, a mente então restará seca
Pois drenou-se até sair palavra viva.

A inspiração me prende igual coleira:
Se tento fugir, ela me traz pra perto;
Sem passeio até fazer-lhe jus inteira;
Tenho que vestí-la em corte reto e certo.

Se a obra envolve musa em carne e osso
A inspiração me envolve feito seda,
Eu flutuo sobre um colchão bem grosso
E me afasto de qualquer palavra azeda.

Cada estrofe é um parto natural
Cada palavra, uma batalha ganha
Cada rima é vencer um festival
Cada obra a minha superfície arranha.

Cada texto é uma fratura na armadura
Que eu quebro todo dia, sem descanso
Meu descanso é procurar outra aventura
Pois coração de poeta não é manso.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.