Autobiográfico XV / Crítico

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O palhaço ainda sabe fazer rir.

Meu coração é um desperdício
Otimista desde o início
Mendigando atenção.

Pobres átrios e ventrículos
Não cansam de serem ridículos;
Não pedem extrema unção.

Faço muito texto belo
Mas o sorriso é amarelo
Quando percebo a ironia.

És uma estátua de areia
Tão real quanto a sereia
Que surge na epifania.

Rico do ouro de tolo
Não tenho um pé de consolo
Que me dê satisfação.

O verso é confessório
O lamento é notório
Meus dias só são.

Eu busco um novo sentido,
Limpar o peito doído,
Rasgado em outra recusa.

Recusa que eu fomento
Ao insistir no alimento
Que fere quem muito abusa.

Sou uma pergunta sem resposta,
Oferta sem contraproposta,
Crime sem objeto.

Sou um louco desinternado,
Sou um morto desenterrado,
Sou um péssimo projeto.

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Autobiográfico XIV / Cotidiano em confissão

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Eis aqui teu perdulário
Gastando vocabulário
Pra contar causo do dia…

…em que a vida não dá trégua,
Cada passo é uma légua,
Todo sonho se adia.

Esse chão que não distingue,
Seja matuto ou bilíngue,
Recebe a nós igualmente…

…pois se a herança varia
Na última cantoria
Todo ser vira semente.

Eis o mundo em que vivemos,
Pouco somos, muito temos,
Pra fugir da solitude…

…somos individualistas,
Somos pseudo-artistas,
Sem trabalhar na virtude.

Tá faltando coerência,
Honestidade, decência,
Por-se no lugar de alguém…

…Compartilhar dos problemas,
Recriar os velhos lemas,
Fazer mais que ser ninguém.

Meu espírito se cansa,
Não tem sorte nessa dança
Que todos dançam às cegas…

…quem me dera ser bom só
Como a linda nota sol
Em qualquer palco de Vegas.

Paciência é algo escasso…
Descobri noutro fracasso
Mas a sorte é ainda mais.

Cabeça me diz “avante”
O coração me diz “cante”
Quando a inspiração jaz.

Maior confissão já feita
Não tem pronta uma receita
É feita de improviso.

Biografia cantada
É bonita; não diz nada…
São só palavras; é isso.

Autobiográfico XIII / Vácuo

Meu amor é uma mentira,
Uma bala que não atira
Num alvo desconhecido;

É luz de estrela morta,
Medida de régua, torta,
Na cara do iludido.

Meu querer é mais um luxo,
Coisa que não enche o bucho
Quando a fome traz o frio;

Outro inócuo remédio
(Não é bom nem sequer médio);
Faz das lágrimas um rio.

Meu sentir não liga as peças,
Não me cumpre as promessas
De haver reciprocidade;

Estrada sem cruzamento,
Adulto sem seu rebento,
Prefeito sem sua cidade.

Meu pensar é chuva santa,
O que sobra à seca planta
Quando o resto não lhe irriga;

Ladeira que só se desce
No rumo de outra prece
Que se converte em cantiga.

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Portão de embarque

Meu barco dorme à margem dum rio seco
Meu ser hiberna onde não pertence
O meu amor é vítima num beco
Minha canção nenhum festival vence.

Meu pensamento foge da mentira
Meu coração a ele atrapalha
Se tento, em vão, conter a minha ira,
Me queimo fácil, como fosse palha.

O espelho mostra alguém que desconheço
Pois o que vejo não traz resultado
O “ser eu mesmo” cobra um grande preço
Eu pago e nada levo do mercado.

Se os meus planos falham um a um
Melhor mesmo é mudar o objetivo
Nos tantos eu encontrarei algum
E nele eu terei meu incentivo.

Pra quem se livra de um velho caminho
Qualquer um novo é melhor que nada
Acompanhado ou mesmo sozinho
Eu sigo, pois só eu me levo a estrada.

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Desafio das palavras: Bigorna (a versão dele)

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“Bigorna, instrumento de trabalho do ferreiro, que forja o metal no calor.
Papel, instrumento de trabalho do poeta, que forja as frases no contexto.”

Um poema faz sentido ao poeta
Dois poemas reunidos, ah! Nem tanto
Um pedaço de papel cumpre uma meta
Que é incerta mesmo ao cair de seu manto.

Um poeta nada diz sobre o poema
Dois poetas mudam o rumo da conversa
Ao poeta é melhor mudar o tema
Quando a sua inspiração só tergiversa.

Se o fio da meada está fervendo
Nada abala seu caminho luminoso
Uma ideia vem pulsante, num crescendo;
Não existe trabalho mais proveitoso.

A cabeça do poeta é uma enxaqueca
Só esperando a substância dispersiva
Com o alívio, a mente então restará seca
Pois drenou-se até sair palavra viva.

A inspiração me prende igual coleira:
Se tento fugir, ela me traz pra perto;
Sem passeio até fazer-lhe jus inteira;
Tenho que vestí-la em corte reto e certo.

Se a obra envolve musa em carne e osso
A inspiração me envolve feito seda,
Eu flutuo sobre um colchão bem grosso
E me afasto de qualquer palavra azeda.

Cada estrofe é um parto natural
Cada palavra, uma batalha ganha
Cada rima é vencer um festival
Cada obra a minha superfície arranha.

Cada texto é uma fratura na armadura
Que eu quebro todo dia, sem descanso
Meu descanso é procurar outra aventura
Pois coração de poeta não é manso.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Desafio das palavras: Sorvete de limão (a versão dele)

Eis o momento que precede minhas epifanias, mudanças de planos, renascimentos. Eis o golpe que me desperta para o mundo que ainda não aproveitei.

§

Triste fico quando sonho por demais. Triste estou quando, mesmo com muito, ainda peço mais.
Triste eu era no auge da minha solidão; triste sou quando aqueles a quem peço nada me dão.
Triste eu tento ser alguém para ser visto; mais triste me vejo quando nada ganho por isto.
Triste sou eu falando de tristeza. Triste é uma palavra triste por natureza.
Fale de tristeza comigo, pois dela eu entendo. Dela já morri; revivi, agora sou o remendo.
Não me fale de amor, ao ouvir dele, triste fico; pois ele me deixou pobre depois de me fazer rico.
Tristeza um pouco é bom, pra definir alegria; por demais é mal crônico que lhe cega e inebria.
Não gosto da tristeza, mas ela me acompanha; quem vive de amar demais, da tristeza sempre apanha.
Há dias sem tristeza, mas eu mesmo não lembro; qual foi mesmo o ano que teve 31 de setembro?
Há dias de alegria, mas não lembro também; há muito me deixou quem eu queria tanto bem.
Eu canto essa tristeza, porque ela aqui ecoa; toda vez que lhe canto, ela bate asa e voa.
Eu canto meu lamento, porque ele é bem bonito; tristeza enche meu prato; tristeza é meu dito.
Meu canto não é triste, apesar do seu tema; é que qualquer assunto recai em meu poema.
Sou um poeta triste, que quer se consolar…nas vias dos amores que vivo a caminhar.
Traga sua tristeza, que a ela eu enfeito; faço dela canção, no ritmo e tom perfeito.
Não peço algo em troca, pois verei seu sorriso; mesmo triste eu quero ver seu riso até o siso.
Se eu fosse um sorveteiro, venderia só limão: é doce, é azedo, mas refresca…tá na mão!
A tristeza do poeta é um misto de sabores; decepções, alegrias, tristezas, amores.
Mas esse sabor limão é mesmo especial: combina esses gostos quase que ao natural.
Se tem sabor melhor, você pode me ensinar; eu sou bom sorveteiro, mas posso melhorar.

§

Eis o momento em que contemplo o sabor do meu esforço, o produto da minha reflexão. Eis a rotina que me persegue: da tristeza, fazer alegria, como o triste palhaço que curiosamente sabe fazer rir.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Autobiográfico X / Itinerante

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Em cada balaio que eu caio
Repenso minha natureza
De cada balada que eu saio
Perco um pouco mais de certeza.

A turma que hoje me acolhe
Não faz toda essa questão
Meu ego é daquele que encolhe
Quanto mais pessoas estão.

Por isso eu não acho meu meio
E vivo pro próximo galho
Batendo mais um escanteio
Tentando evitar ato falho.

Meus pares são extrovertidos;
Eu sou um maluco à parte;
Seus medos já foram vencidos;
Os meus, haverá quem aparte?

Um passo que dão me são dez;
Meu passo ninguém acompanha:
Marcas que destoam dos pés;
Estrada invisível e estranha.

Meu objetivo é gasoso,
Volátil, intangível, arisco
Eu quero no pouco ter gozo
E nunca repetir o disco.