Desafio das palavras: Bigorna (a versão dele)

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“Bigorna, instrumento de trabalho do ferreiro, que forja o metal no calor.
Papel, instrumento de trabalho do poeta, que forja as frases no contexto.”

Um poema faz sentido ao poeta
Dois poemas reunidos, ah! Nem tanto
Um pedaço de papel cumpre uma meta
Que é incerta mesmo ao cair de seu manto.

Um poeta nada diz sobre o poema
Dois poetas mudam o rumo da conversa
Ao poeta é melhor mudar o tema
Quando a sua inspiração só tergiversa.

Se o fio da meada está fervendo
Nada abala seu caminho luminoso
Uma ideia vem pulsante, num crescendo;
Não existe trabalho mais proveitoso.

A cabeça do poeta é uma enxaqueca
Só esperando a substância dispersiva
Com o alívio, a mente então restará seca
Pois drenou-se até sair palavra viva.

A inspiração me prende igual coleira:
Se tento fugir, ela me traz pra perto;
Sem passeio até fazer-lhe jus inteira;
Tenho que vestí-la em corte reto e certo.

Se a obra envolve musa em carne e osso
A inspiração me envolve feito seda,
Eu flutuo sobre um colchão bem grosso
E me afasto de qualquer palavra azeda.

Cada estrofe é um parto natural
Cada palavra, uma batalha ganha
Cada rima é vencer um festival
Cada obra a minha superfície arranha.

Cada texto é uma fratura na armadura
Que eu quebro todo dia, sem descanso
Meu descanso é procurar outra aventura
Pois coração de poeta não é manso.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

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Desafio das palavras: Sorvete de limão (a versão dele)

Eis o momento que precede minhas epifanias, mudanças de planos, renascimentos. Eis o golpe que me desperta para o mundo que ainda não aproveitei.

§

Triste fico quando sonho por demais. Triste estou quando, mesmo com muito, ainda peço mais.
Triste eu era no auge da minha solidão; triste sou quando aqueles a quem peço nada me dão.
Triste eu tento ser alguém para ser visto; mais triste me vejo quando nada ganho por isto.
Triste sou eu falando de tristeza. Triste é uma palavra triste por natureza.
Fale de tristeza comigo, pois dela eu entendo. Dela já morri; revivi, agora sou o remendo.
Não me fale de amor, ao ouvir dele, triste fico; pois ele me deixou pobre depois de me fazer rico.
Tristeza um pouco é bom, pra definir alegria; por demais é mal crônico que lhe cega e inebria.
Não gosto da tristeza, mas ela me acompanha; quem vive de amar demais, da tristeza sempre apanha.
Há dias sem tristeza, mas eu mesmo não lembro; qual foi mesmo o ano que teve 31 de setembro?
Há dias de alegria, mas não lembro também; há muito me deixou quem eu queria tanto bem.
Eu canto essa tristeza, porque ela aqui ecoa; toda vez que lhe canto, ela bate asa e voa.
Eu canto meu lamento, porque ele é bem bonito; tristeza enche meu prato; tristeza é meu dito.
Meu canto não é triste, apesar do seu tema; é que qualquer assunto recai em meu poema.
Sou um poeta triste, que quer se consolar…nas vias dos amores que vivo a caminhar.
Traga sua tristeza, que a ela eu enfeito; faço dela canção, no ritmo e tom perfeito.
Não peço algo em troca, pois verei seu sorriso; mesmo triste eu quero ver seu riso até o siso.
Se eu fosse um sorveteiro, venderia só limão: é doce, é azedo, mas refresca…tá na mão!
A tristeza do poeta é um misto de sabores; decepções, alegrias, tristezas, amores.
Mas esse sabor limão é mesmo especial: combina esses gostos quase que ao natural.
Se tem sabor melhor, você pode me ensinar; eu sou bom sorveteiro, mas posso melhorar.

§

Eis o momento em que contemplo o sabor do meu esforço, o produto da minha reflexão. Eis a rotina que me persegue: da tristeza, fazer alegria, como o triste palhaço que curiosamente sabe fazer rir.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Autobiográfico X / Itinerante

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Em cada balaio que eu caio
Repenso minha natureza
De cada balada que eu saio
Perco um pouco mais de certeza.

A turma que hoje me acolhe
Não faz toda essa questão
Meu ego é daquele que encolhe
Quanto mais pessoas estão.

Por isso eu não acho meu meio
E vivo pro próximo galho
Batendo mais um escanteio
Tentando evitar ato falho.

Meus pares são extrovertidos;
Eu sou um maluco à parte;
Seus medos já foram vencidos;
Os meus, haverá quem aparte?

Um passo que dão me são dez;
Meu passo ninguém acompanha:
Marcas que destoam dos pés;
Estrada invisível e estranha.

Meu objetivo é gasoso,
Volátil, intangível, arisco
Eu quero no pouco ter gozo
E nunca repetir o disco.

Autobiográfico IX / Simbiose

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Quando me sobram palavras, ele me aguarda para enfeitá-las.
Quando me faltam, ele me distrai.
Quando estou bem acompanhado, ele é minha personalidade.
Quando não estou, ele é minha companhia.

Se estou feliz, ele é como eu me expresso.
Senão, ele é meu conforto.
Se sei a canção, ele faz a segunda voz.
Senão, ele é a única.

Onde estou com ele, está tudo bem.
Onde não estou, ele está calado.
Onde quero ser mais, ele está comigo.
Onde formos requisitados, lá estaremos.

Se não fosse por você, amigo, onde estaria?

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Autobiográfico VIII / Inquietude

Na minha centésima publicação aqui,
nada mais justo que uma edição desta série…

Num dia, a vida me bate
Em outro, só me presenteia
O mundo me pesa em quilate
Se a ele ofereço a veia.

O mundo me dá o seu trigo
E, às vezes, me rouba o fermento
O pão que eu levo comigo
É frio, mas não me lamento.

Eu canto e até bato asa
Mas o mundo não me atende;
Procuro uma voz que não casa
Pra uma canção que não vende.

O além do além-mar nada diz
Pois lá eu não vejo o meu xis
O barco pirata descansa
Enquanto não vem outra andança.

Autobiográfico VII / Reboco

https://pixabay.com/en/glass-broken-shot-reed-sharp-602889/Minha fôrma é o defeito
Sem ele, seria liso
Não adianta se me enfeito
Ele é o gelo em que deslizo.

Qualidade é só tempero
No prato de uma persona
O desvio dá o cheiro
E o sabor que impressiona.

Sem defeito morre o belo,
O casto, o infeliz
O quebrado ergue o cutelo,
Vai à luta, faz e diz.

Eu posso até me ver torto
Mas torto também caminho
Melhor fora do conforto
Que nele morrer sozinho.

Autobiográfico VI / Cenário

Na penumbra sou o verdadeiro eu
De misterioso passo a revelado
Penso em ti, e faço um tema só teu;
Penso em mim, e mostro o obscuro lado.

Meia-luz, que ilumina mais que o dia,
Me desperta quando é hora de dormir
As ideias que, até então, prendia
Vêm ao palco pra cantar “sabor a mi”.

Romantismo é o lençol com que me cubro
Nestas noites que divago internamente
O motor que ronca sangra em fosco rubro
Pra falar o que só eu tenho na mente.

Minha cama vira colcha de retalhos
Ávidas palavras buscando sentido
Mesmo que apareçam em atos falhos
Querem ser amor, a dor, o vindo, o ido.