Autobiográfico IX / Simbiose

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Quando me sobram palavras, ele me aguarda para enfeitá-las.
Quando me faltam, ele me distrai.
Quando estou bem acompanhado, ele é minha personalidade.
Quando não estou, ele é minha companhia.

Se estou feliz, ele é como eu me expresso.
Senão, ele é meu conforto.
Se sei a canção, ele faz a segunda voz.
Senão, ele é a única.

Onde estou com ele, está tudo bem.
Onde não estou, ele está calado.
Onde quero ser mais, ele está comigo.
Onde formos requisitados, lá estaremos.

Se não fosse por você, amigo, onde estaria?

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Autobiográfico VIII / Inquietude

Na minha centésima publicação aqui,
nada mais justo que uma edição desta série…

Num dia, a vida me bate
Em outro, só me presenteia
O mundo me pesa em quilate
Se a ele ofereço a veia.

O mundo me dá o seu trigo
E, às vezes, me rouba o fermento
O pão que eu levo comigo
É frio, mas não me lamento.

Eu canto e até bato asa
Mas o mundo não me atende;
Procuro uma voz que não casa
Pra uma canção que não vende.

O além do além-mar nada diz
Pois lá eu não vejo o meu xis
O barco pirata descansa
Enquanto não vem outra andança.

Autobiográfico VII / Reboco

https://pixabay.com/en/glass-broken-shot-reed-sharp-602889/Minha fôrma é o defeito
Sem ele, seria liso
Não adianta se me enfeito
Ele é o gelo em que deslizo.

Qualidade é só tempero
No prato de uma persona
O desvio dá o cheiro
E o sabor que impressiona.

Sem defeito morre o belo,
O casto, o infeliz
O quebrado ergue o cutelo,
Vai à luta, faz e diz.

Eu posso até me ver torto
Mas torto também caminho
Melhor fora do conforto
Que nele morrer sozinho.

Autobiográfico VI / Cenário

Na penumbra sou o verdadeiro eu
De misterioso passo a revelado
Penso em ti, e faço um tema só teu;
Penso em mim, e mostro o obscuro lado.

Meia-luz, que ilumina mais que o dia,
Me desperta quando é hora de dormir
As ideias que, até então, prendia
Vêm ao palco pra cantar “sabor a mi”.

Romantismo é o lençol com que me cubro
Nestas noites que divago internamente
O motor que ronca sangra em fosco rubro
Pra falar o que só eu tenho na mente.

Minha cama vira colcha de retalhos
Ávidas palavras buscando sentido
Mesmo que apareçam em atos falhos
Querem ser amor, a dor, o vindo, o ido.

Autobiográfico V / Amor em todo verso

Amora só nasce no pé
Romanos são feitos em Roma
O crime está sobre o tripé
Seríamos nós uma soma?

Meu dom é também o meu carma,
Produtor de setas mortais,
Em vezes, na função de arma
Em outras, são anzol num cais.

Meu peito ordena avançar;
A mente dispara um “alto!”;
A mão na cabeça a coçar
Pois quando preciso me falto.

A balança não mostra o raso
Pois, em alto-mar, eu navego
Na solidão mostro meu caso
Pois amor é todo o meu ego.

Autobiográfico IV / Atitude

Se você se leva a sério
Vai levar pro necrotério
Um bocado de besteira.

Se você ri de si mesmo
Vai espalhar, a torto e a esmo,
Alegria a vida inteira.

Não se leve tanto a sério
Pro coração se curar
Sua alma e o mistério
Vão então se separar.

Vamos rir da própria causa
E trilhar o chão alegre
Suplicar, durante a pausa,
Que amor nos reintegre.

Autobiográfico III / Metalinguístico?

Pode o hoje ser difícil
E até desanimar
Mas não esqueço do início
Nada havia pra rimar.

Antes ritmo faltava
Hoje só desejo fé
Pois nas veias tenho lava
Na cabeça, um bom café.

Minha obra é pra você
Que está no amanhã
E aqui faz por merecer
Ao gozar do meu afã.

O que virá na canção
Que sucede o refletir
Exposto nesta aflição
Que aqui venho repetir?

Autobiográfico II / Salto no vazio

Os versos estão fugindo
Na sua velocidade
O dia fica mais lindo
Quando é leve a saudade.

As melodias que faço
Refletem uma mudança
Do outro lado do traço
Renasce uma criança.

E a brincadeira mais nova
É dar o melhor de si
Botei meu amor a prova;
Fiz versos, canções em si.

Autobiográfico I / viagem ao centro de mim

Só consigo escutar meu coração
Na frequência de sua serenidade
Quando paro tudo e dou atenção
Aos apelos que ele me diz ser verdade.

Após anos, começo a me entender
E a me explicar sobre o que eu procuro:
Um amor que não me faça esconder,
Me revele à luz, me tire do escuro.

Sou amor, um ser que disso se alimenta
Sou amante, um homem que isso produz
Sou pro meu amor a mãe que amamenta
Sou pro mundo um fio que o amor conduz.

Os meus versos são banhados neste rio
Em que navego, cada dia mais certo
De que vou amar, no vento, chuva ou frio
De que vou sumir, pelo amor encoberto.