Desafio das Palavras: Pergunte a Ela (A versão dele)

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Há muito tempo eu era inquieto e insatisfeito; procurava o meu caminho, ávido por descobrir meu propósito no mundo e realizar meus objetivos ordinários.
Eu vivia estressado, apressado, na ponta dos cascos…estava cheio de dúvidas, mas não parava pra perguntar.
Cada dia era uma corrida ou uma batalha: talvez encontrasse a linha de chegada; quem sabe eu saísse de pé.
Viver pra mim sempre foi um ofício: mudar a realidade familiar, sair do aperto, encontrar um chão pra pisar…e quantos anos e quantos cabelos isso tudo me custou…!
Mas, no meio de tudo, você surgiu para rebobinar a fita, me dar um motivo só meu: ser sua. E, em sendo, ganhei o seu amparo pra crescer e ser o que nunca imaginei que poderia.
Mas não fui o bastante pra você…admito.
No entanto, amor de verdade é uma corrida infinita com barreiras… você corre, salta obstáculos, cai, levanta, sopra a ferida, corre de novo…porque o amor batizado em paixão é combustível renovável…
Eu te amo e sempre te amarei, mulher. Você mudou meus rumos para todo o sempre, e serei sempre grato por isso. Guardo nosso amor como se fosse uma pele por baixo da minha própria.. Ele é a lembrança de bons tempos e de que sou alguém que pode amar assim de novo e de novo.
E se preciso saber quem sou, pra onde vou, por que seguir, por que cantar, como ser feliz…só me basta fechar os olhos, sonhar e ouvir tua voz a me responder, olhar teus olhos a me guiar, tocar teu rosto e voar por este mundo surreal, aflito e, ainda assim, encontrar razão e alegria. Porque, em algum momento nesta vida, pude ser seu e entender perfeitamente o que é ser.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

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Desafio das Palavras: “Monotonia monogâmica: verdade ou ilusão?” (a versão dele)

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Naquele banco do parque eu te conheci, trocamos o primeiro beijo, me pus de joelhos pra pedir sua mão. Você me permitiu seguir outro rumo na vida, até então desconexo dos meus ideais e desejos.
Você se tornou um dos meus desejos e cúmplice dos meus ideais.
Eu era um planador, de rumo reto e insosso…você refez minha engenharia, veio pra ser meu manche e motor.
Outra figura tão marcante não há nem haverá, pois você está para minh’alma como gêmeos siameses estão um para o outro: naturalmente ligados.
Um dia nossas mãos se tocaram por acidente; você deixou escapar um leve sorriso; eu pedi desculpas. Em casa, algumas palpitações antes de dormir.
— Tudo bem, amor?
— Sim, meu bem.
E fui dormir.
Uma semana depois, já eram perguntas bobas aqui ou ali. Em casa, olho pra janela como se seus olhos castanhos, seus cabelos negros e sua silhueta ali estivessem.
— Amor, você está estranho…
— Eu? Que nada…só pensando um pouco.
Antes de uma traição, você se trai. Propósitos antes pétreos agora são inconveniências diante do novo objetivo. Você esquece de parar, pensar, concluir e conversar. Você pula etapas, depois tenta retornar.
Era um dia com mais trabalho que o normal. Por que deixar para amanhã o que pode ser pretexto pro que vai acontecer hoje? Você passa em frente a minha janela. Um soluço. Você passa pela minha porta. Respiro. Alguém bate à porta. Pode ser qualquer um. Você pede licença.
(Na verdade, você entrou sem bater. Eu que estou tentando conter uma avalanche de emoções aqui.)
No suposto intuito de perguntar algo com e sem sentido, você se aproxima de mim. O final já foi decretado, mas nós queremos desafiar a si e ao outro a resistir a este jogo: de nervos, de sedução.
Roupas e cabelos fora de lugar; mentes noutro plano; hormônios em profusão. Muita coisa se passou antes dessa descarga visceral e lasciva. Dois pares de olhos, de mãos e de lábios incontidos, e duas pessoas querendo fundir-se numa só…espera aí…eu já fiz isso antes.
Em casa, me visto de quem trocou o pneu do carro no meio do caminho, para olhar nos olhos de com quem “já fiz isso antes”. Onde eu estava com a cabeça? Noutro plano.
Minha árvore da vida exibe dois galhos fortes: o de sempre e o novo. O frutífero e o espinhoso. Quero a doçura do fruto e o ardor do espinho. E agora? Faço a árvore crescer, faço uma tenda de espinhos, ou pulo entre os galhos, na esperança de que não quebrem e eu me quebre de uma vez sob os pés das raízes?

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Desafio das Palavras: Agulha no palheiro (A versão dele)

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Sou marginal.

Vivo à margem dos quereres que me apresentam. “O mundo é de quem tem: tenha também”! O que ganho com isso? Contas pra pagar e menos espaço em casa. Que o mundo gira em torno do dinheiro, isso é inegável…mas, pensando bem, uma cédula de papel é inflamável; minhas ideias são à prova de fogo.

Passo ao largo dos amores de conveniência, de carnaval, de momento. Sou o próprio amor, sou um profeta dEle, um filho de DNA idêntico a seu genitor. E este é meu defeito. Ser amor encarnado é bonito na teoria, mas terrível na prática. Sem tratamento para este mal, vivo a vida de um paciente crônico: aguardando a melhor hora.

Sou indigno da realidade urbana, do caos compartimentado entre as faixas de tráfego, do novo vício do stress, das amizades de rede social. Não fui criado pra isso…entretanto realizo o milagre de sobreviver em meio a estas coisas tão distintas de minhas personalidade, talvez por não temer o novo, o estranho…

Ainda assim, me sinto uma agulha no palheiro.

É preciso fogo pra me separar da palha que é essa vida que não me compreende: por que comprar, se tenho o que preciso? Por que não se apegar, se eu vivo de conexões fortes e ricas? Por que aumentar o passo, se eu sei aonde quero chegar? Aquele mesmo fogo vai queimar tudo o que é descartável, mas vai somente aquecer o metal que conduz toda energia que lhe é dada.

Escrevo pra ser entendido, compreendido. Quem me segue supera as minhas expectativas; quem me propaga, levará calor aos corações de outras agulhas que também estão perdidas por um dos palheiros do mundo.

Sou, na verdade, uma agulha quente.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Desafio das palavras: A decepção do “não” mal dado (a versão dele)

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“Porque sim” determina. “Porque não” destrata. “Sei sim” dá esperança. “Sei não” aumenta a lacuna. “Diz que sim” é um pedido. “Diz que não” é se iludir.

“Não” nada mais é que um advérbio de modo. E o modo como se diz importa. Sou ser humano e, mais do que isso, evito negar aos meus aquilo que tenho. Nada é meu, nem mesmo minha vida.

Vivi de negativas a vida inteira; nada veio de graça, exceto o amor de mãe. Com isto e uns trocados no bolso, você vai pro mundo. Se foi bem criado, saberá que muitos “nãos” virão pelo caminho: alguns serão justos e proporcionais; outros serão ríspidos e transitivos.

O que fazer dos “nãos” ríspidos? Limonada. Um “não” vindo sem pensar é medo de perder, é medo de ganhar…se uma alma lhe nega acesso, siga o caminho do bem. Os bons sabem seguir.

O que fazer com os “nãos” transitivos, aqueles que não vieram de quem lhe entregou, mas de alguém lá na outra ponta, que decidiu repassar suas frustrações e medos a outro? Eu não repasso…sinto que devo frear a cadeia produtiva da depreciação dos meus irmãos de espécie.

Parece fácil dar conselhos, mas tudo isso é fruto daquelas dores convertidas em aprendizado. Quanto mais se ouve o não, mais se aprende a dizer sim…e vice-versa. Afinal, o que os mimados egoístas mais ouvem em sua criação? O “sim”. Quem mais estende a mão ao próximo? Os pobres, que tantos “nãos” acumulam em suas contas particulares.

Diga não à tentação de esconder o sim…o progresso em qualquer plano precisa ser aceito para ser bem feito. É preciso dizer sim a vida para vivê-la plenamente. Não use o “não” para reprimir o seu semelhante, mas para afastar o mal. Use o “sim” para ser livre.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Desafio das palavras: Bigorna (a versão dele)

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“Bigorna, instrumento de trabalho do ferreiro, que forja o metal no calor.
Papel, instrumento de trabalho do poeta, que forja as frases no contexto.”

Um poema faz sentido ao poeta
Dois poemas reunidos, ah! Nem tanto
Um pedaço de papel cumpre uma meta
Que é incerta mesmo ao cair de seu manto.

Um poeta nada diz sobre o poema
Dois poetas mudam o rumo da conversa
Ao poeta é melhor mudar o tema
Quando a sua inspiração só tergiversa.

Se o fio da meada está fervendo
Nada abala seu caminho luminoso
Uma ideia vem pulsante, num crescendo;
Não existe trabalho mais proveitoso.

A cabeça do poeta é uma enxaqueca
Só esperando a substância dispersiva
Com o alívio, a mente então restará seca
Pois drenou-se até sair palavra viva.

A inspiração me prende igual coleira:
Se tento fugir, ela me traz pra perto;
Sem passeio até fazer-lhe jus inteira;
Tenho que vestí-la em corte reto e certo.

Se a obra envolve musa em carne e osso
A inspiração me envolve feito seda,
Eu flutuo sobre um colchão bem grosso
E me afasto de qualquer palavra azeda.

Cada estrofe é um parto natural
Cada palavra, uma batalha ganha
Cada rima é vencer um festival
Cada obra a minha superfície arranha.

Cada texto é uma fratura na armadura
Que eu quebro todo dia, sem descanso
Meu descanso é procurar outra aventura
Pois coração de poeta não é manso.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Desafio das palavras: O que realmente importa no fim (a versão dele) (lado B)

Queria que esse tivesse sido o lado A, mas o que importa é que ele esteja aqui…

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Mais um dia se passou. E, que ironia, você parece mais presente que antes. Não importa que já não sejamos um casal; é que você marcou presença, mudou o meu ser. Afinal, quem deixa marca não desaparece, mas faz falta.
Você se foi e eu sobrei. Só que estou mais para resto que para excedente. Enquanto não inverto esse jogo, reflito: o que ficou, além de mim?
Uma pessoa triste pela ida, mas conformada pela sua decisão. Quem ama, permite.
Um homem ainda mais apaixonado. Quero reviver o amor que me é combustível. Quem ama, vive.
Alguém redescobrindo a esperança. Preciso e tenho fé de que sou importante, mesmo depois de perder metade de mim. Quem ama, regenera.
Um cara que sorri mesmo na dor. O meu amor não lhe serve mais, mas qualquer pessoa pode recebê-lo no mesmo ou em outro formato. Quem ama, compartilha.
Diante deste mar revolto à noite, que é a solidão, eu me faço de navio… permeio suas armadilhas buscando o farol que se chama “amanhã”. A solidão é o hoje, mas no hoje posso usar a luz do farol. Assim o hoje se torna mais claro, na perspectiva de que o melhor vem depois do bom.
De solitário, passarei a sozinho, de sozinho a ninho, de ninho a pássaro. De pássaro a revoada, de revoada a céu. E, iluminado, atraindo satélites.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Desafio das palavras: O que realmente importa no fim (a versão dele)

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É muita audácia de um iniciante falar de um tema tão profundo…mas nessas horas somos ensinados a andar sobre os ombros de gigantes. Pois bem.

Para melhor versar sobre o fim, o certo é se projetar lá ao invés de imaginar o que espera encontrar.
Nascemos sós e morremos igualmente, portanto nada levaremos: pessoas, nem coisas, nem mesmo memórias; tudo ficará pra trás.

Você viveu uma vida inteira e agora bate compulsoriamente numa porta que nunca quis…a saída. Você fez tudo o que quis e agora entrega tudo de volta. O que esperar, se todos os planos se resumem a nada?

Então, para construir o nada é preciso tudo? De certa forma sim. Gosto da dualidade entre conceitos, quando um define o outro, como o tudo/nada em questão. Tudo, em nossa breve existência, não significa tentar de tudo, mas preencher cada pedaço da nossa linha do tempo com algo relevante, marcante. Desta forma, o nada faz sentido. O pós-vida é um descanso de tudo que fizemos, do trabalho máximo, da obra definitiva.

Imagine deixar para trás uma vida medíocre e não poder retornar para melhorá-lá? A isto se dá o nome de arrependimento, e este é o único caso em que arrependimento mata. Literalmente.

Então se algo ainda importa no fim, este será seu ato derradeiro, pois não haverá mais tempo para outro.

Voltemos ao presente: somos donos de si, representantes máximos do livre-arbítrio. Hoje é o fim. Repita isso. Agora pense: o que você é de relevante tem que ir pro mundo enquanto é possível. Pois você vai e seus ideais ficam. Se o pensador não ecoa seu pensamento, este morrerá sem ter sido dado à luz.

Entendeu o porquê de “dar à luz”?

“Pessoas tem rosto, ideias não”. Ideias são imortais, na forma de teoria, arte, dogma, filosofia…creia em seus ideais, lute por eles, mas não morra tentando, pois a morte é certa. Não há por que dar razão ao fim, se ele é “porque sim”. Tudo que o precede é seu, é terra a descobrir, é tela a pintar.

O que realmente importa no fim é que nada mais possa ser feito, é que ele seja um dia como os outros, no qual você quer ser imortal por meio dos seus sonhos.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.