Um brega pra distrair

Você sumiu após tantas promessas
E não ligou de mandar um recado
Que atitudes são essas?
Por que me deixa largado?

No seu vazio eu declamo
Mas ninguém pega o sentido
Ao mesmo tempo em que reclamo
Quero esconder meu gemido.

Assim você me destrata,
Vende caro seu cumprimento;
Insisto e pago essa prata
Pois é pior se só lamento.

Talvez eu seja um vassalo
Querendo o feudo na mão
Mas não posso devassá-lo;
Barco só tem um timão.

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Supernova

Nestas curvas o atrito é inimigo
Pois me levam para perto de você
A inércia quer me ver junto contigo;
A razão quer me impedir de perecer.

Por que raio esta órbita escolhi?
Eu não posso gravitar neste planeta
Há muitos satélites girando ali
E eu nunca fui além de ser cometa.

Num espaço tão imenso e abrangente
Essa força é que atrai a minha massa:
Se colido, sumo imediatamente;
Se resisto, outra lua lhe faz graça.

E se você for apenas uma estrela
Ofuscando um buraco negro à frente?
E se eu for supernova que, ao vê-la,
Se amedronta com seu brilho imponente?

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Autobiográfico XVI / Ermita

Sozinho eu venço batalhas;
Batalhas venço solitário;
Encontrando mais e mais falhas,
Aguardando o próximo páreo.

Amigos não trago pra luta
Pois são dos meus tempos de paz;
A guerra tem causa fajuta;
Eles são, por muito, reais.

Viver, de qualquer jeito, é duro
A mente é sempre insatisfeita
Penso, solitário, no escuro:
Que mal estará na espreita?

Que bem a sorte me promete?
Que jeito o acaso dará?
Que louco sabe o que conserte
O peito de quem sofrerá?

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Sete Letras Que Me ‘Mata’ É Saudade

Leonardo Veiga, do Prosas e Café, um escritor maravilhoso, me deu a ideia para os dois primeiros versos.
O título é um verso cantado em “Saudade”, canção do Trio Nordestino, de 1967.

Por favor, não me dê mais saudade
Porque meu peito é cheio d’ocê
Sua falta é calor que me arde;
Venha aqui pra eu arrefecer.

É mentira; aí que eu inflamo!
De febril eu passo a ensopado;
Se só quero, vou dizer que amo;
Se silvestre, serei cativado.

Ê saudade que o homem delira,
Diz besteira, conversa com o vento,
Esperando pra dar uma gira
Com quem ele mais quer no momento.

Ah que falta de amar mais ainda!
E de você, que tudo povoa:
Pensamento, que nunca se finda;
Ideal, pro meu ser, de pessoa.

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Check-In

Toda vez que você aparece, seja num oi ou numa foto, o meu tempo para. E, durante este hiato, eu lembro que não é bom se apaixonar. Afinal, saímos da nossa zona, não de conforto mas de sensatez. Fundamentamos nossas decisões sobre belos e saltitantes olhos negros que nos convidam a um vício como se nosso cérebro tivesse receptores nervosos exclusivamente dedicados a tais prazeres.

Não importa qual o seu e o meu momento atual; eu simplesmente perco noções do presente e da normalidade, e me sinto compelido a tomar o primeiro avião pra sua cidade. E quem disse que, quando eu tomei um avião pra sua cidade com outros motivos, eu não dei um jeito de lhe ver, como se aquele fosse o objetivo principal?

Mas eu não posso me apaixonar. Eu não posso desviar da minha estrada só porque seu sorriso é um “vem cá” sem tamanho, só porque nossas rarefeitas conversas me prendem feito biografias de artistas que floresceram e sobreviveram em meio à ditadura de 64, só porque tenho esperança de isso virar algo que me complete.

Eu me basto? Se você me quiser, serei suficiente para mim e algo mais pra você? Por que lhe envolvo nas minhas perguntas se só eu tenho as respostas? É por isso que não posso me apaixonar por você. Senão você invade as questões que preciso responder antes de lhe amar (se amarei), com ou sem paixão.

Enquanto isso, meu canto de boca revela o sorriso ao ver que o seu surge de surpresa em redes sociais quaisquer.

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Introspectivo

Grilos cantam enquanto lembro
Que você me estranhava
Do silêncio virei membro
Pois calar-me não bastava.

Eu construí um casulo
Mas posso sair lagarta;
Quanto mais me encabulo
Mais eu jogo essa carta.

Muito pouco faz sentido;
Você não entenderia
Mas, há muito, fui vencido
Feito fraca alvenaria.

Assim restou o retiro
Para rever minhas rotas
Em torno de mim eu giro
Cantando as mesmas notas.

Não se preocupe agora
Não quero ser mais um grilo
Que nessa cabeça mora
E demora tão tranquilo.

Hei de achar o que procuro
Quando houver o que buscar;
Eu sou assim, obscuro;
Qualquer coisa, chegue cá.

Cantada às avessas

Cantada às avessas

Você quer um poema, e não o poeta;
Você quer inspirar sem conviver;
Não vê que o troféu não faz o atleta;
O atleta é quem faz por merecer.

Você trata o poeta feito fruta
Descasca, morde, joga o resto ao chão;
Não vê que a poesia bem lhe escuta
E eternizará sua condição.

Entenda que arte não é produto
E artista não é máquina de texto
Se você quer ser tema, dê tributo,
Dê mais valor e arrume outro pretexto.

Se quer saber, eu não preciso disso;
Eu não preciso nem ser o que sou;
Eu sou um artista sem compromisso;
Você é um vento que já passou.

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