Incerto de que sou

Talvez eu nunca aprenda de verdade a ser calmo, pois continuo emulando esse jeito de ser, sempre combatendo essa natureza ansiosa que deseja pra agora uma vida inteira sem saboreá-la no ritmo da frugalidade.

Talvez eu compreenda um dia o que é ser eu mesmo sem me preocupar demais em se haverá o dia de amanhã.

Talvez o meu mapa astral um dia me dê folga e livramento, para que eu não mais me enxergue como um produto do meio.

Talvez um dia eu só me preocupe com meus sonhos e com o hoje, vivendo-o com naturalidade e sabedoria.

Talvez um dia eu escreva sobre isso com propriedade e consciência.

Talvez um dia você me leia e acredite. E tomara que eu acredite em mim antes mesmo de você.

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Salmo da Revisita

Se você se sente sozinho, torne-se o seu melhor amigo. Ame ser quem é, não necessariamente ame-se.
Se você se sente triste, faça do mundo uma enorme piada. Produza felicidade.
Se você se sente fraco, lute pelos seus ideais; se ainda não os tem, conheça-os.
Se você se sente mal, faça o bem.
Se o seu arredor lhe acua, faça arte e o transforme. Deixe sua marca.
Se tem dúvidas sobre quem é e o que procura, viaje. Procure o canto do mundo em que su’alma lhe espera para a comunhão.
Insatisfeito? Calcule o preço dos seus sonhos. Pague e tome-os para si. Ponha-os como as renas do seu trenó e voe.
Está feliz? Recomece, mas não esqueça de dançar.

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Uma Pedra E Um Lugar Distante

O que é uma pedra num lugar distante?
Um objeto ermo.
Algo longe do contato.
Alguém sem o que ou quem procura.
Eu sem você.
Um tesouro cujo mapa foi destruído.
Plutão.
Um condenado na solitária.
O verso sem leitores.
A paz após o apocalipse.

O que é um lugar distante para uma pedra?
Um habitat momentâneo.
Qualquer lugar que a gravidade não lhe ajude a cair naquela direção.
Um refúgio.
O bem que se quer ao alcance de uma longa viagem.
Uma aterrissagem.
Um dia qualquer ou toda a eternidade.
A Terra para os aliens. E vice-versa.
O devaneio criativo quando me falta inspiração.
A prosopopeia sem propósito.

Você me faz ser surrealista.

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Um brega pra distrair

Você sumiu após tantas promessas
E não ligou de mandar um recado
Que atitudes são essas?
Por que me deixa largado?

No seu vazio eu declamo
Mas ninguém pega o sentido
Ao mesmo tempo em que reclamo
Quero esconder meu gemido.

Assim você me destrata,
Vende caro seu cumprimento;
Insisto e pago essa prata
Pois é pior se só lamento.

Talvez eu seja um vassalo
Querendo o feudo na mão
Mas não posso devassá-lo;
Barco só tem um timão.

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Supernova

Nestas curvas o atrito é inimigo
Pois me levam para perto de você
A inércia quer me ver junto contigo;
A razão quer me impedir de perecer.

Por que raio esta órbita escolhi?
Eu não posso gravitar neste planeta
Há muitos satélites girando ali
E eu nunca fui além de ser cometa.

Num espaço tão imenso e abrangente
Essa força é que atrai a minha massa:
Se colido, sumo imediatamente;
Se resisto, outra lua lhe faz graça.

E se você for apenas uma estrela
Ofuscando um buraco negro à frente?
E se eu for supernova que, ao vê-la,
Se amedronta com seu brilho imponente?

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Autobiográfico XVI / Ermita

Sozinho eu venço batalhas;
Batalhas venço solitário;
Encontrando mais e mais falhas,
Aguardando o próximo páreo.

Amigos não trago pra luta
Pois são dos meus tempos de paz;
A guerra tem causa fajuta;
Eles são, por muito, reais.

Viver, de qualquer jeito, é duro
A mente é sempre insatisfeita
Penso, solitário, no escuro:
Que mal estará na espreita?

Que bem a sorte me promete?
Que jeito o acaso dará?
Que louco sabe o que conserte
O peito de quem sofrerá?

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Sete Letras Que Me ‘Mata’ É Saudade

Leonardo Veiga, do Prosas e Café, um escritor maravilhoso, me deu a ideia para os dois primeiros versos.
O título é um verso cantado em “Saudade”, canção do Trio Nordestino, de 1967.

Por favor, não me dê mais saudade
Porque meu peito é cheio d’ocê
Sua falta é calor que me arde;
Venha aqui pra eu arrefecer.

É mentira; aí que eu inflamo!
De febril eu passo a ensopado;
Se só quero, vou dizer que amo;
Se silvestre, serei cativado.

Ê saudade que o homem delira,
Diz besteira, conversa com o vento,
Esperando pra dar uma gira
Com quem ele mais quer no momento.

Ah que falta de amar mais ainda!
E de você, que tudo povoa:
Pensamento, que nunca se finda;
Ideal, pro meu ser, de pessoa.

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