Atracadouro

Relembrando um tema condizente com este dia especial.

Paulino Solti

Para o dia de hoje.

De um lado, a enseada; do outro, o barco. Entre eles, o mar, o mundo.
Ela vê o barco sair para explorar o mar, e voltar para recomeçar. Ele sai para se encontrar, e volta para se reconhecer.
Ela lhe dá o casco, o mastro, as velas, o timão…e só lhe pede que navegue feliz.
Ele volta, trazendo mais amor e mais ventos do que havia na saída.
Oh enseada, uma vida que se multiplica; um acidente que acolhe os barcos que lhe deixam para ir tão longe e retornar como se nada houvesse acontecido.
Os barcos só compreendem a sua vocação quando se desconstroem e se transformam em novos portos e enseadas.
Feliz dia das enseadas.

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Autobiográfico XV / Crítico

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O palhaço ainda sabe fazer rir.

Meu coração é um desperdício
Otimista desde o início
Mendigando atenção.

Pobres átrios e ventrículos
Não cansam de serem ridículos;
Não pedem extrema unção.

Faço muito texto belo
Mas o sorriso é amarelo
Quando percebo a ironia.

És uma estátua de areia
Tão real quanto a sereia
Que surge na epifania.

Rico do ouro de tolo
Não tenho um pé de consolo
Que me dê satisfação.

O verso é confessório
O lamento é notório
Meus dias só são.

Eu busco um novo sentido,
Limpar o peito doído,
Rasgado em outra recusa.

Recusa que eu fomento
Ao insistir no alimento
Que fere quem muito abusa.

Sou uma pergunta sem resposta,
Oferta sem contraproposta,
Crime sem objeto.

Sou um louco desinternado,
Sou um morto desenterrado,
Sou um péssimo projeto.

Lona

Nem sempre tenho versos.
Tem dia que é só uma gota d’água.
Por vezes, faço chover.
Noutras, derramo uma lágrima.

Nesses dias, eu mais vivo que reflito.
Nesses dias, a inspiração bate em outras portas.
Sozinho com meus pensamentos não-poéticos, aguardo seu retorno. Enciumado.
Enquanto conto as horas.

Quando ela retorna, saciada dos demais, faminta de mim, estou sempre de guarda baixa.
Ela bate sem defesa.
No máximo, busco o papel para registrar seu nocaute.
E desfaleço satisfeito.

Ao recobrar os sentidos, percebo que a inspiração deixou doze rounds de versos para trás.
E, outra vez, foi-se como quis.
Dizem que são os vencedores que contam a história…
Pois é, inspiração. Ganhei de você outra vez.

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Perigo

Eu quero essa mulher de um jeito…
Tenho certeza que ela sabe
A gente brinca com respeito
Enquanto em nós a paixão cabe.

Olhar nos olhos nos é raro
Tocar-se então, meu Deus, quem dera…
Mas paira em nosso ar um faro
Que incita nosso lado fera.

Ela tem medo do perigo
Que no seu coração reside
Se é vero o que está consigo
Por que se empenhar nessa lide?

Ainda que o faça em segredo
Ao coração atenderá
Comigo você esquece o medo
E o melhor de mim terá.

Se depois de feita essa tese
Você ainda duvidar
Só resta lhe pedir que reze
Pra tanta paixão olvidar.

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Seus Olhos: Poslúdio

Eu vi seus olhos depois de tanto tempo e fiz uma aposta. Sonhei como adolescente e, na distância, vi o sonho não passar de meninice…o poeta se ilude, enverga mas não quebra, pois o dia seguinte pede mais poesia, mais amor, mais daquilo que me fez escrever você em série.

A série: https://paulinosolti.com.br/category/seus-olhos-a-serie/

Seus Olhos: Meninice

Esta é uma paródia de “A Banda”, de Chico Buarque de Hollanda.

Um trem passou feito bala
Não parou na estação
A voz do menino cala
Calando o meu coração.

Eu olho em volta, catracas,
Pessoas, trilhos, vagões
Sinais de que só empacas
Se não dás lenha aos fogões.

Um trem tem hora pra passar; impaciência esqueceu
Talvez em outro tempo eu possa me chamar de “seu”
Será que a locomotiva assustou
Ao ver que alguém já comprou a passagem?

Por quantas estações ela vai passar pra entender
Que a sua disposição está meu querer e poder?
De que adianta continuar a canção,
Se ela não escuta o calar
Que vem do meu coração?

A ferrovia não liga
Se estou longe daquela
Que quero mais que amiga
Que liga meu ser a ela.

Quando ela perder o bonde
Terei mudado o modal
Irei não importa aonde
Fugi dos trens afinal…

Mas se ela reaparecer e propor algo mais
Será que tenho forças para não olhar pra trás?
O que farei diante do que mais quero
Se sua volta é o que tanto espero?

Eu vivo a ilusão de quem atrasado correu
Na esperança de que todo o esforço valeu
Mas a verdade é que ela já zarpou
E eu insisto em ouvir a voz do interior.

Seus Olhos: Distância – https://paulinosolti.com.br/2017/04/09/seus-olhos-distancia/

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Coletânea: Raridade / Acessório / Mantra da Amizade / O mundo segue girando

“Raridade”

Coisas raras prescindem atenção
Raras coisas raramente mais que são.
O que é raro só cativa o próprio nicho
Bicho, quando é raro, atrai sempre outro bicho.

Quadro negro se vazio nada diz
Quadro cheio deixa a turma infeliz
Monalisa já virou lugar comum
Mas o quadro novo não é apenas mais um.

“Acessório”

Eu sou só outra peça
Neste seu quebra-cabeça
Ainda não lhe interessa
Relembrar antes que esqueça
O valor de cada peça
E no sonho permaneça.

“Mantra da Amizade”

Deixa essa vida dar certo, rapaz
O que a gente precisa é de paz
Nem tudo que você vê acontece
Faz teu pedido, mandinga ou prece
Você já tem os seus próprios problemas
Deixe os demais com seus outros dilemas
Seja esse amigo que mostra o valor
Leva pro mundo o seu grande calor.

“O mundo segue girando”

Depois que te dei tudo
Quase não sobrou de mim
Tanto tempo fiquei mudo
Quando você nos deu fim.

Mas o que sobrou me diz
Que a vida continua
Melhor tentar ser feliz
Que ficar olhando a rua.

E assim contemplo o mundo,
Onde tudo me inspira
Vou num ritmo fecundo
Cada vez que ele gira.

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Seus Olhos: Distância

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Distante de você reflito
“Que representa esta falta?”
Sou, no teu bosque, um palito
Querendo ser árvore alta.

Não quero ver você distante
Agora que me ressurgiu
Você me inspira o bastante
Pra sermos qual Flora e Gil.

Se você cortar a distância
Os versos seguirão nascendo
Sentirei a sua fragrância,
Escreverei mais um adendo.

Distância me traz a saudade
Você acrescenta a urgência…
…de escrever com brevidade
O que perturba minha essência.

“Seus Olhos (Interlúdio II)” – https://paulinosolti.com.br/2017/04/08/seus-olhos-interludio-ii/

Seus Olhos (Interlúdio II)

Você está longe…e mesmo assim a mente me traz a sua figura, a sua lembrança…e a sensação parece a mesma de vinte anos atrás…não acredito em destino, mas por que voltaria a sentir tanto por você, a ponto de escrever uma série só sua?

“Seus Olhos: Adolescente” – https://paulinosolti.com.br/2017/03/29/seus-olhos-adolescente/

Autobiográfico XIV / Cotidiano em confissão

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Eis aqui teu perdulário
Gastando vocabulário
Pra contar causo do dia…

…em que a vida não dá trégua,
Cada passo é uma légua,
Todo sonho se adia.

Esse chão que não distingue,
Seja matuto ou bilíngue,
Recebe a nós igualmente…

…pois se a herança varia
Na última cantoria
Todo ser vira semente.

Eis o mundo em que vivemos,
Pouco somos, muito temos,
Pra fugir da solitude…

…somos individualistas,
Somos pseudo-artistas,
Sem trabalhar na virtude.

Tá faltando coerência,
Honestidade, decência,
Por-se no lugar de alguém…

…Compartilhar dos problemas,
Recriar os velhos lemas,
Fazer mais que ser ninguém.

Meu espírito se cansa,
Não tem sorte nessa dança
Que todos dançam às cegas…

…quem me dera ser bom só
Como a linda nota sol
Em qualquer palco de Vegas.

Paciência é algo escasso…
Descobri noutro fracasso
Mas a sorte é ainda mais.

Cabeça me diz “avante”
O coração me diz “cante”
Quando a inspiração jaz.

Maior confissão já feita
Não tem pronta uma receita
É feita de improviso.

Biografia cantada
É bonita; não diz nada…
São só palavras; é isso.