Mão de Moça?

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Dia 9 é dia de refletir sobre o dia 8.

– Não me venha com esse termo ultrapassado!
As mãos são a nossa extremidade mais técnica: escrevem, tecem, tocam, modelam, conduzem, indicam, acariciam, corrigem…são tantos os verbos que talvez seja melhor contar aqueles que não representam possíveis ações manuais.
A mão que lava não é a que enxuga, assim como a mão que faz o bem não deve ser vista pela outra.
As mãos externam nossos desejos não-verbais, nossas ações mais primorosas, que requerem perícia. Haja vista a desproporção na força aplicada a elas em ações estúpidas.
Até no ato de escrever é fácil notar o fenômeno: escreva com pressa (ou seja, aplique força supérflua as suas mãos); sairão pensamentos rústicos, ásperos, mal trabalhados, ou seja, ideias sem sentido.
As mãos foram feitas para o ser humano criar um mundo ao seu redor, por meio de formas, sons, texturas e sabores (o mundo nada mais era que um monte de curvas e quinas antes do modelador sapiens começar seu trabalho).
Então não me venha com essa história de “mão de moça”. O que a mão de uma moça não pode fazer, se constitui-se dos mesmos elementos químicos, moléculas, células e tecidos que a mão de um homem?
Certamente um biólogo afirmará que a diferença está na constituição genética das peças distintas. E paramos por aí (a mão de uma moça, por vezes, até produz coisas melhores que a sua, meu nobre).
A diferença está mesmo no cérebro ao qual estas mãos estão ligadas. Basta uma boa cabeça pra ter boas mãos a obra. Simples, não?

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Exemplo

Pra falar grande, é preciso ser grande.

Ao invés de analisar o simplismo e a redundância, analiso a questão. Se desejo convencer (vencer junto) alguém de um argumento, preciso ser prova da teoria, e não o professor. Devo ser quem diz “eu fiz” e não “faça”.

O bom ensinamento vem da prática, dos joelhos ou cotovelos ralados, do corpo exaurido, da cabeça fumegante. Aquele que anda “sobre os ombros de gigantes” encontra um meio físico pelo qual vê o que está além do muro da ignorância, pelo qual salta ao novo destino, o campo desconhecido, o elo perdido.

Metamorfose

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Desejo se descreve em prosa. Eu te vejo e te desejo. Não há meias palavras.

Você passa por mim e eu nem noto. Você chama meu nome, eu reconheço a sua voz. Milhares de reações químicas ocorrem no meu corpo. Viro às costas e lá está você, sorrindo porque me vê. Eu luto para me conter, pois é você. Simplesmente uma mulher inacreditável, que provoca mais do que libido em mim; provoca erupção dos sentidos e das ideias.

Eu quero passar 24 horas por dia de papo contigo, mas não posso me dar esse luxo nem as circunstâncias permitem. Mas, se eu pudesse, você enjoaria de estar comigo.
Penso em você de várias formas, porém principalmente naquele papo solto após horas tântricas. Temos tanto em comum que o tantra faz todo o sentido de se praticar entre semelhantes. Elevar os sentidos, comungar o tempo, o espaço, o recíproco, o metafísico.

Volta e meia o meu desejo se converte em conversas imaginárias que tenho contigo: sejam as perguntas básicas, sejam as visões de futuro que passam pela minha cabeça (e eventualmente a sua). É um exercício de relaxamento que desmantela a saudade em partes menores, que uso para construir um telescópio pra enxergar de longe, sem tocar, sem causar dano.

O meu desejo já virou poesia. Afinal, você pra mim não é só desejo.

Desafio das Palavras: “Monotonia monogâmica: verdade ou ilusão?” (a versão dele)

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Naquele banco do parque eu te conheci, trocamos o primeiro beijo, me pus de joelhos pra pedir sua mão. Você me permitiu seguir outro rumo na vida, até então desconexo dos meus ideais e desejos.
Você se tornou um dos meus desejos e cúmplice dos meus ideais.
Eu era um planador, de rumo reto e insosso…você refez minha engenharia, veio pra ser meu manche e motor.
Outra figura tão marcante não há nem haverá, pois você está para minh’alma como gêmeos siameses estão um para o outro: naturalmente ligados.
Um dia nossas mãos se tocaram por acidente; você deixou escapar um leve sorriso; eu pedi desculpas. Em casa, algumas palpitações antes de dormir.
— Tudo bem, amor?
— Sim, meu bem.
E fui dormir.
Uma semana depois, já eram perguntas bobas aqui ou ali. Em casa, olho pra janela como se seus olhos castanhos, seus cabelos negros e sua silhueta ali estivessem.
— Amor, você está estranho…
— Eu? Que nada…só pensando um pouco.
Antes de uma traição, você se trai. Propósitos antes pétreos agora são inconveniências diante do novo objetivo. Você esquece de parar, pensar, concluir e conversar. Você pula etapas, depois tenta retornar.
Era um dia com mais trabalho que o normal. Por que deixar para amanhã o que pode ser pretexto pro que vai acontecer hoje? Você passa em frente a minha janela. Um soluço. Você passa pela minha porta. Respiro. Alguém bate à porta. Pode ser qualquer um. Você pede licença.
(Na verdade, você entrou sem bater. Eu que estou tentando conter uma avalanche de emoções aqui.)
No suposto intuito de perguntar algo com e sem sentido, você se aproxima de mim. O final já foi decretado, mas nós queremos desafiar a si e ao outro a resistir a este jogo: de nervos, de sedução.
Roupas e cabelos fora de lugar; mentes noutro plano; hormônios em profusão. Muita coisa se passou antes dessa descarga visceral e lasciva. Dois pares de olhos, de mãos e de lábios incontidos, e duas pessoas querendo fundir-se numa só…espera aí…eu já fiz isso antes.
Em casa, me visto de quem trocou o pneu do carro no meio do caminho, para olhar nos olhos de com quem “já fiz isso antes”. Onde eu estava com a cabeça? Noutro plano.
Minha árvore da vida exibe dois galhos fortes: o de sempre e o novo. O frutífero e o espinhoso. Quero a doçura do fruto e o ardor do espinho. E agora? Faço a árvore crescer, faço uma tenda de espinhos, ou pulo entre os galhos, na esperança de que não quebrem e eu me quebre de uma vez sob os pés das raízes?

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Desafio das Palavras: Agulha no palheiro (A versão dele)

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Sou marginal.

Vivo à margem dos quereres que me apresentam. “O mundo é de quem tem: tenha também”! O que ganho com isso? Contas pra pagar e menos espaço em casa. Que o mundo gira em torno do dinheiro, isso é inegável…mas, pensando bem, uma cédula de papel é inflamável; minhas ideias são à prova de fogo.

Passo ao largo dos amores de conveniência, de carnaval, de momento. Sou o próprio amor, sou um profeta dEle, um filho de DNA idêntico a seu genitor. E este é meu defeito. Ser amor encarnado é bonito na teoria, mas terrível na prática. Sem tratamento para este mal, vivo a vida de um paciente crônico: aguardando a melhor hora.

Sou indigno da realidade urbana, do caos compartimentado entre as faixas de tráfego, do novo vício do stress, das amizades de rede social. Não fui criado pra isso…entretanto realizo o milagre de sobreviver em meio a estas coisas tão distintas de minha personalidade, talvez por não temer o novo, o estranho…

Ainda assim, me sinto uma agulha no palheiro.

É preciso fogo pra me separar da palha que é essa vida que não me compreende: por que comprar, se tenho o que preciso? Por que não se apegar, se eu vivo de conexões fortes e ricas? Por que aumentar o passo, se eu sei aonde quero chegar? Aquele mesmo fogo vai queimar tudo o que é descartável, mas vai somente aquecer o metal que conduz toda energia que lhe é dada.

Escrevo pra ser entendido, compreendido. Quem me segue supera as minhas expectativas; quem me propaga, levará calor aos corações de outras agulhas que também estão perdidas por um dos palheiros do mundo.

Sou, na verdade, uma agulha quente.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Desafio das palavras: O que realmente importa no fim (a versão dele) (lado B)

Queria que esse tivesse sido o lado A, mas o que importa é que ele esteja aqui…

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Mais um dia se passou. E, que ironia, você parece mais presente que antes. Não importa que já não sejamos um casal; é que você marcou presença, mudou o meu ser. Afinal, quem deixa marca não desaparece, mas faz falta.
Você se foi e eu sobrei. Só que estou mais para resto que para excedente. Enquanto não inverto esse jogo, reflito: o que ficou, além de mim?
Uma pessoa triste pela ida, mas conformada pela sua decisão. Quem ama, permite.
Um homem ainda mais apaixonado. Quero reviver o amor que me é combustível. Quem ama, vive.
Alguém redescobrindo a esperança. Preciso e tenho fé de que sou importante, mesmo depois de perder metade de mim. Quem ama, regenera.
Um cara que sorri mesmo na dor. O meu amor não lhe serve mais, mas qualquer pessoa pode recebê-lo no mesmo ou em outro formato. Quem ama, compartilha.
Diante deste mar revolto à noite, que é a solidão, eu me faço de navio… permeio suas armadilhas buscando o farol que se chama “amanhã”. A solidão é o hoje, mas no hoje posso usar a luz do farol. Assim o hoje se torna mais claro, na perspectiva de que o melhor vem depois do bom.
De solitário, passarei a sozinho, de sozinho a ninho, de ninho a pássaro. De pássaro a revoada, de revoada a céu. E, iluminado, atraindo satélites.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.

Desafio das palavras: O que realmente importa no fim (a versão dele)

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É muita audácia de um iniciante falar de um tema tão profundo…mas nessas horas somos ensinados a andar sobre os ombros de gigantes. Pois bem.

Para melhor versar sobre o fim, o certo é se projetar lá ao invés de imaginar o que espera encontrar.
Nascemos sós e morremos igualmente, portanto nada levaremos: pessoas, nem coisas, nem mesmo memórias; tudo ficará pra trás.

Você viveu uma vida inteira e agora bate compulsoriamente numa porta que nunca quis…a saída. Você fez tudo o que quis e agora entrega tudo de volta. O que esperar, se todos os planos se resumem a nada?

Então, para construir o nada é preciso tudo? De certa forma sim. Gosto da dualidade entre conceitos, quando um define o outro, como o tudo/nada em questão. Tudo, em nossa breve existência, não significa tentar de tudo, mas preencher cada pedaço da nossa linha do tempo com algo relevante, marcante. Desta forma, o nada faz sentido. O pós-vida é um descanso de tudo que fizemos, do trabalho máximo, da obra definitiva.

Imagine deixar para trás uma vida medíocre e não poder retornar para melhorá-lá? A isto se dá o nome de arrependimento, e este é o único caso em que arrependimento mata. Literalmente.

Então se algo ainda importa no fim, este será seu ato derradeiro, pois não haverá mais tempo para outro.

Voltemos ao presente: somos donos de si, representantes máximos do livre-arbítrio. Hoje é o fim. Repita isso. Agora pense: o que você é de relevante tem que ir pro mundo enquanto é possível. Pois você vai e seus ideais ficam. Se o pensador não ecoa seu pensamento, este morrerá sem ter sido dado à luz.

Entendeu o porquê de “dar à luz”?

“Pessoas tem rosto, ideias não”. Ideias são imortais, na forma de teoria, arte, dogma, filosofia…creia em seus ideais, lute por eles, mas não morra tentando, pois a morte é certa. Não há por que dar razão ao fim, se ele é “porque sim”. Tudo que o precede é seu, é terra a descobrir, é tela a pintar.

O que realmente importa no fim é que nada mais possa ser feito, é que ele seja um dia como os outros, no qual você quer ser imortal por meio dos seus sonhos.

Paulino Solti x Camila Barretto

“Desafio das palavras” é um jogo proposto, com o objetivo de versar sobre temas vindos de fora pra dentro; inspirar-se ao contrário. Dois poetas, cada um com seu olhar sobre o tema/título.