Check-In

Toda vez que você aparece, seja num oi ou numa foto, o meu tempo para. E, durante este hiato, eu lembro que não é bom se apaixonar. Afinal, saímos da nossa zona, não de conforto mas de sensatez. Fundamentamos nossas decisões sobre belos e saltitantes olhos negros que nos convidam a um vício como se nosso cérebro tivesse receptores nervosos exclusivamente dedicados a tais prazeres.

Não importa qual o seu e o meu momento atual; eu simplesmente perco noções do presente e da normalidade, e me sinto compelido a tomar o primeiro avião pra sua cidade. E quem disse que, quando eu tomei um avião pra sua cidade com outros motivos, eu não dei um jeito de lhe ver, como se aquele fosse o objetivo principal?

Mas eu não posso me apaixonar. Eu não posso desviar da minha estrada só porque seu sorriso é um “vem cá” sem tamanho, só porque nossas rarefeitas conversas me prendem feito biografias de artistas que floresceram e sobreviveram em meio à ditadura de 64, só porque tenho esperança de isso virar algo que me complete.

Eu me basto? Se você me quiser, serei suficiente para mim e algo mais pra você? Por que lhe envolvo nas minhas perguntas se só eu tenho as respostas? É por isso que não posso me apaixonar por você. Senão você invade as questões que preciso responder antes de lhe amar (se amarei), com ou sem paixão.

Enquanto isso, meu canto de boca revela o sorriso ao ver que o seu surge de surpresa em redes sociais quaisquer.

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Introspectivo

Grilos cantam enquanto lembro
Que você me estranhava
Do silêncio virei membro
Pois calar-me não bastava.

Eu construí um casulo
Mas posso sair lagarta;
Quanto mais me encabulo
Mais eu jogo essa carta.

Muito pouco faz sentido;
Você não entenderia
Mas, há muito, fui vencido
Feito fraca alvenaria.

Assim restou o retiro
Para rever minhas rotas
Em torno de mim eu giro
Cantando as mesmas notas.

Não se preocupe agora
Não quero ser mais um grilo
Que nessa cabeça mora
E demora tão tranquilo.

Hei de achar o que procuro
Quando houver o que buscar;
Eu sou assim, obscuro;
Qualquer coisa, chegue cá.

Cantada às avessas

Cantada às avessas

Você quer um poema, e não o poeta;
Você quer inspirar sem conviver;
Não vê que o troféu não faz o atleta;
O atleta é quem faz por merecer.

Você trata o poeta feito fruta
Descasca, morde, joga o resto ao chão;
Não vê que a poesia bem lhe escuta
E eternizará sua condição.

Entenda que arte não é produto
E artista não é máquina de texto
Se você quer ser tema, dê tributo,
Dê mais valor e arrume outro pretexto.

Se quer saber, eu não preciso disso;
Eu não preciso nem ser o que sou;
Eu sou um artista sem compromisso;
Você é um vento que já passou.

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Palavras de Paraninfo 2017.1

O professor Cláudio Amorim foi meu orientador em trabalho de conclusão de curso, mas também o é na vida, com palavras tão sábias e indubitáveis. Leiam esta lição de vida e renovem seus corações.

Cláudio Amorim

Nota preliminar:
O presente discurso, ligeiramente adaptado, foi proferido na formatura da turma de Sistemas de Informação 2017.1 da UNEB – Campus I, em 28 de julho de 2017, da qual tenho a honra de ser paraninfo. Deixo de fora, por desnecessárias, as saudações protocoladres. Por outro lado, reitero os agradecimentos aos Afilhados que, generosamente, obrigaram-me a escrever o texto e estimularam-me a publicá-lo.

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Queridos novos bacharéis, doravante meus Afilhados,
Ikaro, Iris, Jailton, Lorena e Rylan,

Obrigado por estarem aqui e por me permitirem celebrar com vocês, dirigindo-lhes a palavra nesse dia cerimonial.

Senhoras e Senhores,
Estimados Jovens,

Saudações fraternais; saudações cidadãs; saudações acadêmicas: a minha saudação, hoje, é também um apelo à resistência.

Saudações fraternais, eu disse. Mas a fraternidade anda escondida, quando não esquecida. Permanece viva, ainda assim, nas pessoas que saem de si para irem ao encontro das demais, socorrendo, amparando e instruindo. Porque há quem…

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Ubíqua

Olhe, você me perturbou o quanto pôde sem me dizer um oi, invadiu meus sonhos sem pedir licença, brincou com meus sentimentos sem me dar o “sim”. E eu fico como nessa história?

Sem você.

Eu me perco feito um doido, esbravejo igual marido traído, esperneio como criança. Afinal você tomou o molde da minha cabeça, ocupou os espaços, fez-se dona de mim sem sequer começar a me amar. E eu fico como nessa história?

Com você.

Eu tento lhe esquecer em vão, eu me culpo por gostar de você, eu jogo fora as referências…tudo isso pra acabar tendo você ainda mais forte no pensamento, pois fotos e vídeos nunca serão tão fortes e duradouras quanto as sinapses do meu cérebro, que lhe conservam como o barril de carvalho ao vinho. E eu fico como nessa história?

Escrevendo histórias a seu respeito…

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Arredia

É de longe que eu lhe tenho
Pois a vida assim deseja
Mas se vale o meu empenho
Aqui estou pra que me veja.

Seu sorriso é só um instante
Na mesma fotografia
Que mesmo estando distante
Revisito com alegria.

Mas você tem algum medo
Que esconde na atitude
Essa pose é arremedo;
Esse aterro é só o talude.

Uma coisa eu lhe aconselho:
Não deixe o tempo passar
Amor bom é o do espelho
Mas o meu também, quiçá…

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Infidelidades

Infidelidades

Leonardo é um cara cujas histórias eu não perco…uma igual a esta então…

Prosas e Café

Rio de Janeiro

Paulo (ou Paulão para os íntimos) tem 37 anos de idade, é casado e não possui filhos. Ele é negro, alto, forte e anda com uma cara de poucos amigos. Tem uma tosse chata, mas não é fumante. Anda rápido, mas puxa um pouco a perna. Na noite em questão, estava voltando pra casa. Tinha acabado de descer do trem e seguiu caminhando até o fim da estação, fez uma pequena pausa e pôs um dos pés no banco de madeira a fim de amarrar o cadarço. Não me recordo o nome da estação, “Parada de Lucas” talvez. Ele não pertencia as comunidades dali, contudo sua residência ficava num bairro próximo. Após arrumar o tênis, regrediu para a rota padrão de casa. Na escadaria, puxou o celular e deu um toque para a esposa, Maura. Queria saber o que tinha pro jantar. O dia foi puxado, o…

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